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A COVID-19 é semelhante à comum gripe sazonal?

Artigo da autoria de Inês Queiroz e Joana Flores, estudantes de Medicina da Universidade do Minho e criadoras do Educa Corona

 

Um dos mitos que tem vindo a circular nas redes sociais diz respeito à comparação da COVID-19 com a gripe sazonal (provocada pelo vírus Influenza), de onde se conclui que são “a mesma coisa”. Este tipo de pensamento é perigoso, não só porque não tem suporte científico, mas também porque pode levar à relativização da necessidade de adotar medidas mais “apertadas” para a contenção do SARS-CoV-2.

Por esta razão, consideramos relevante trazer para a nossa plataforma aquilo que o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (CEPCD) expôs sobre o assunto a 6 de Março.

Comparação entre gripe e COVID-19

  1. A entidade refere que apesar das semelhanças entre o SARS-CoV-2 e o vírus que provoca a gripe sazonal, nomeadamente a nível da manifestação sintomática da infeção e transmissão direta entre pessoas, o comportamento dos dois é diferente: à data da publicação estimava-se que em 1000 pessoas com gripe sazonal, faleceria 1, ao passo que em cada 1000 pessoas com COVID-19 faleceriam 20 a 30 (dados relativos aos Estados Unidos, Reino Unido, Noruega e Liechtenstein*). Os números devem ser interpretados no contexto em que se inserem, mas permitem, neste caso, compreender a diferença entre a mortalidade por COVID-19 e por gripe.

  2. Para além do argumento da diferença na taxa de mortalidade, o CEPCD refere ainda que para além de não haver tratamento específico para a COVID-19 (passando apenas pelo tratamento e controlo de sintomas), não existe ainda vacina para prevenção do mesmo, ao contrário do que acontece com a gripe (a vacina da gripe não é 100% eficaz na prevenção da infeção mas admite-se que reduz consideravelmente a taxa de incidência**). Ainda mais, menciona que sendo o SARS-CoV-2 um “novo” coronavírus, aquando do seu surgimento ninguém tinha imunidade para o mesmo e, portanto, toda a população estava sujeita a ser infetada.
  3. Quanto à facilidade e rapidez com que o SARS-CoV-2 se transmite, refere que atualmente se sabe que:

      – o tempo entre a exposição ao vírus e o início dos sintomas (período de incubação) pode variar entre 2 e 14 dias (no caso da gripe são habitualmente 2 a 4***)

      – uma pessoa infetada poderá infetar pelo menos duas ou três pessoas

      – pessoas sem sintomas também podem transmiti-lo (embora não haja estudos suficientemente robustos para explicar o peso desta transmissão no evoluir da epidemia)

Ou seja, este vírus parece ser mais difícil de conter do que o que causa a gripe sazonal, tanto que já constitui atualmente uma pandemia (definida pelo Centers for Disease Control and Prevention como uma epidemia que se alastrou por vários países ou continentes, habitualmente afetando um elevado número de pessoas).

Para concluir, a gripe sazonal é sem dúvida um problema com um peso considerável economicamente (tanto pela fatia de custos na saúde que é investida no tratamento de doentes, como pelo prejuízo causado pela perda de produtividade laboral por quem contrai gripe), que requer medidas de prevenção e cuidados específicos. Porém, face à rapidez de propagação do novo coronavírus (já classificada como pandemia), a inexistência de vacina, a possibilidade de toda a população ser infetada por não possuir imunidade entre outros fatores mencionados previamente, torna-se importante atualmente direcionar um pouco os cuidados de saúde e reforçar ainda mais as medidas, cada vez mais apertadas, de prevenção para a pandemia por COVID-19 no sentido de conter o melhor possível a sua evolução.

 

Referências bibliográficas:

* https://www.ecdc.europa.eu/en/novel-coronavirus-china/questions-answers?fbclid=IwAR1XlSC4snhpSJEWSuKMFoUSrjK-_vbM8T7tyY6JugUC8AvJOKp1gx0SOWQ

** Direção-Geral da Saúde (2019) Vigilância da Gripe em Unidades de Cuidados Intensivos e Enfermarias na época 2018-2019 em Portugal

*** https://www.cdc.gov/flu/about/disease/spread.htm