Skip links

Antibióticos – causa de vida e causa de morte?

A descoberta da penicilina por Alexander Fleming deu início à era dos antibióticos e é reconhecida como um dos maiores avanços da terapêutica médica. Na sequência da descoberta da penicilina muitos outros antibióticos foram desenvolvidos e incontáveis vidas foram salvas.

Atualmente, vivemos o reverso da medalha. Um artigo de janeiro de 2022, publicado na revista The Lancet revela que a resistência a antibióticos é uma das maiores causas de morte a nível mundial.

A resistência aos antibióticos não significa que o nosso corpo seja resistente aos antibióticos. Significa sim que as bactérias que causam a infeção são resistentes ao tratamento antibiótico utilizado e que, por isso, se tornam muitíssimo mais difíceis de eliminar.

E por que se tornam as bactérias mais resistentes? De uma forma simples, pelo conceito de sobrevivência do mais forte. Sempre que uma bactéria sofre uma mutação que lhe permite ser mais forte que os “irmãos” ela torna-se mais capaz de sobreviver, especialmente em ambientes ricos na utilização de antibióticos, como hospitais, em que as bactérias menos fortes são eliminadas. As bactérias mais fortes vão passando o seu conteúdo genético, “de geração em geração”, criando verdadeiros exércitos de super-bactérias com capacidade de lutar e, por vezes, vencer os antibióticos disponíveis.

O estudo publicado na revista The Lancet mostra que, em 2019, houve cerca de cinco milhões de mortes associadas à resistência bacteriana aos antibióticos, tornando-se a terceira principal causa de morte em todo o mundo. Estes números colocam a resistência a antibióticos como um problema de saúde cuja magnitude é pelo menos tão grande como a do HIV e da malária, afetando todas as regiões do globo.

Para podermos controlar esta pandemia de resistências a antibióticos antes que ela assuma níveis ainda mais preocupantes, há dois patamares de ação que são fundamentais: em primeiro lugar, os sistemas de saúde têm que dotar os hospitais de meios eficazes para prevenir e tratar adequadamente as infeções hospitalares que são terreno fértil para as super-bactérias crescerem.

Por outro lado, ao nível das comunidades é imprescindível promover a correta utilização de antibióticos: usar apenas quando necessário, pelo tempo adequado e na formulação correta. Hoje usamos muitas vezes “canhões para matar formigas”, isto é antibióticos de elevada potência para infeções que não necessitam deste nível de medicação. É necessário ainda apostar na vacinação sempre que ela exista e nos cuidados de desinfeção que bem conhecemos deste período pandémico.

Os monstros dos nossos pesadelos de criança afinal existem. Invisíveis a olho nu, silenciosos, mas altamente mortais. Cabe-nos a todos fazer a nossa parte para o pesadelo não se torne permanente.

Raul Marques Pereira

Médico de Medicina Geral e Familiar, especializado em dor
Investigador

Leave a comment